quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PASSAGEIRA


O meu corpo será transformado em cinzas e espalhado ao vento. A alma é suave e leve assim, juntos serão felizes, certamente. As vivências serão deixadas num arquivo em prosa e verso numa gaveta sem chaves - pretensiosamente. Quem sabe num caderno amarelado pelo tempo desbotarão aquilo que relutei para esquecer. As saudades levarei comigo para transformá-las em aposento, nelas descansarei cheia de motivos para agradecer. As dificuldades serão lembradas como oportunidade de melhoramento, sempre, foi assim que consegui interpretá-las. As vitórias serão esquecidas como um mero aspecto da batalha, nada mais que isso. As derrotas serão transformadas em troféus para o aprimoramento da alma, sei que o corpo padecerá, mas ela precisa de júbilo . Os medos serão divulgados publicamente, de forma corajosa, então... Superados! As dores sentidas serão pinceladas na memória como tatuagens vistas à olho nu. Elas serão visitadas com frequencia para que eu possa compreender através da fé o tamanho do Deus que mora em mim. A solidão vivida será como um cálice de amargo líquido que ao ingerir conhecemos melhor quem somos, onde estamos e a que viemos. As viagens feitas serão arquivadas em paisagens que a memória grava, delas guardo as intensões, os compromissos e amigos conquistados de norte a sul, de leste a oeste desse solo de Tupi onde vivi passageira, andarilha... Os textos escritos serão deixados numa lousa onde a vida fez-me aprendente. Os ensaios desse viver serão estrelas do céu onde uma gaivota viaja como quem veleja... As lembranças serão necessárias ao processo de ficar, mesmo partindo. As alegrias serão consumadas no infinito onde tudo dura eternamente. As tristezas serão fonte de autoajuda e tudo será finito porque só Ele não passará. As noites serão contas de um rosário de sonhos e os sonhos serão pra sempre, pra sempre... Um dia meu corpo será transformado em cinzas e então, feliz, bailarei ao vento suavemente. A vida é um breve estar. Estejamos! M.N

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

MUITAS GRAÇAS SENHOR!

Muitas graças Senhor, pelo meu pai
que é um homem bom, especial
a ele, saúde, alegria e paz doai
eis o meu pedido inicial...

A minha mãe consolai! Senhor Jesus
pela ausência de suas filhas queridas
aliviai a dor, o peso de sua cruz
o excesso de trabalho e as dores vividas...

As minhas irmãs que amo tanto
guiai, protegei – meu Pai Celeste
cobrindo-o com o seu suave manto...

Ao meu filho, Senhor! Dai sabedoria
honestidade, humildade e paz

saúde, força, coragem e alegria...


(Ele estava tão bem quando escrevi esse texto...)
M.N

AS MÃOS QUE TENHO




Minhas mãos cansadas,
grossas,
ásperas,
a remendar a vida.

Minhas mãos sofridas,
envelhecidas,
marcadas,
curando dores e feridas.

Minhas mãos tão feias,
enrugadas pelo tempo,
minhas mãos alheias...

Minhas mãos sem brilho,
sem luxo, manchadas
escrevem a história,
revelam a saída,
lavam mágoas da vida,
preparam o alimento para a fome...

As mãos do tempo
eu sei - são remédio, são alento
para quem conduz no peito
só dor, lágrima e sofrimento.

ROTA II


















Não encontrei
o caminho
de volta
perdida
em ti 
permaneço...
Dá-me um guia

um endereço.

Em seu mapa 
a minha rota 
em saudades
o amor brota.
Ando só sem ter voce
mesmo em frota.

LIMITAÇÕES.

...E havia claros sinais de que a vida é dona de seus mistérios. Ela nos permite apenas desvendar o óbvio. Assim, saímos por aí à procura das velhas marcas que o tempo nos revela. Hoje, todos os oráculos conspiram por aquilo que não se pode esconder, negar, disfarçar... Todos os caminhos apontam para um mesmo endereço. Todas as rotas são unilaterais, elas apelam o mesmo traçado de passos, onde pintamos na estrada o caminhar. Passos. Alguns, despretensiosos; outros, direcionados de forma proposital. Ah! Mas, a beleza da vida é fruto desse constante trajeto onde nos conduzimos à casa que habitamos: nós. Porque no íntimo de todos os caminhos, nos cômodos de todas as moradas devemos habitar primeiro quem somos, depois... Na sobra dos tempos refazemos os códigos de endereçamento postal. Eu, posto cartas à mim como quem busca uma aproximação maior consigo mesma. Dessa forma, acredito ser possível descobrir um lugar de calmarias para abarcar minha canoa. Bom. Tenho rios perenes onde possivelmente posso viajar nas ânsias desse tempo de estágios para viver o rumo das águas, sinto-me como tal. Sou líquida, clara, transparente e, sobretudo, tenho para além da matéria organizada, uma alma de vidro que não me deixa escurecer. Hoje, confesso minhas fragilidades, minhas inquietações, minhas LIMITAÇÕES... E sei que como disse a música "há um barco esquecido na praia". Outubro vem chegando para nós com seus róseos sinais de providências, setembro da independência levanta a mão com intenções de dar adeus. O tempo flui numa magia que não se barra, o tempo não para. Ele continua passando, não estaciona para que consertemos as dores, apaguemos as saudades, ou colemos os caquinhos do coração, esse cristal que reflete sonhos, desejos, ilusões, nossas mais profundas vontades. Hoje, eu quero o mais sutil entendimento do que há de vir, o que nos põe em contradição conosco, o que nos cabe diferir ideologias, o que nos possibilita viver toda a beleza dos contrários, daquilo que é diverso. Se, por um instante, a natureza se encarrega de ser dona das próprias vontades, nós, pequenos projetos humanos permanecemos em contínuo processo de auto suficiência. Ser. Não ser. Está aqui, a questão a resolver. Só o tempo é capaz de dirimir dúvidas, solucionar equações e resolver as pendências que deixamos perdidas por aí entre as frestas de vida que abortamos no caminho onde plantamos nosso jardim. Ilumina Senhor! (M.N)

Estranhamente devo confessar

E se existir alguém capaz de me passar informações eu agradeço... Como pode a gente sentir saudades daquilo que nunca teve, de coisas que nunca foram nossas, de vozes que nunca escutamos, de abraços que jamais recebemos? Como pode? Alguém me diz... Como pode a gente chorar por coisas que nunca aconteceram, por afetos que nunca existiram e por ausências que nunca foram presença? Como pode, alguém me diz? Como pode um cheiro remeter ao passado que nunca foi vivida e resgatar uma história que nunca foi real? Como pode um sonho retratar com detalhes lugares onde nunca estivemos fisicamente? Como pode, alguém me diz? Como pode a lua dizer coisas mágicas sem palavra alguma? Como pode? Alguém me diz? Como pode o mar lavar nossa alma sentenciada? Como pode a noite derivar dos sonhos que sonhamos juntos embora distantes?... Como pode a saudade companheira rasgar o coração abrigo com sua navalha afiada? Como pode? Como pode o medo sufocar a hora, aprisionar o tempo e proibir o futuro? Como pode um verso ser desfeito em rimas se a dor é mote? E, sendo mote a dor a sílaba rimar sempre com amor? Como pode o peito ser gaveta rasa para os nossos traumas? Como pode a fé ser chave que abre as algemas da alma? Como pode, alguém me diz? Enquanto isso, fico esperando "respostas." (M.N)

A ETERNIDADE EM MIM, EM MIM, EM NÓS





A eternidade é muito mais que um momento mas dura tal qual a respiração de um anjo. É um sopro poético, frio e leve, mas pesado ao extremo. É um suspiro rasgado, um beijo roubado, um sonho - alcançado? Mutilado? A eternidade é uma música calada ao vento, silenciada no tempo, averbada em nós, é um medo, uma incerteza... É uma chuva noturna que apaga o sol, desbota as estrelas, escurece o viver e apaga os passos deixados na branca areia de uma praia deserta onde habitamos em sonhos e poesias, desejos e fantasias... A eternidade em mim é vazio, lacuna, aresta, vácuo, medo... Em nós é realização de sonhos, concretude de desejos. É mágica, é beijo gelado, úmido, molhado. A eternidade em mim é uma estrada sem fronteiras, em nós é encontro, é chegada numa curva da estrada. A eternidade é uma viagem sem malas prontas, um destino que sufoca e amedronta. A eternidade em nós é carinho, afeto, abraço colado de longes desejado. É talvez uma esperança, um elo, uma aliança...  Amarrou-nos. A eternidade é uma bolha de sabão soprada ao vento, por anjos em desalento, é poema e inconstância, é neurastenia no pensar ou talvez loucura no agir. Seria quem sabe uma inapropriação do tempo que não tem fim, em nós, em mim. A eternidade é espera, uma fagulha... Pobre de quem nela mergulha muito cedo. A eternidade é uma, projeção, pobre de quem não a toca com a mão. A eternidade é um suspiro, um intento, pobre de quem não a tem como instrumento. A eternidade é um moinho, pobre de quem não a tem no caminho... A eternidade em nós é uma rede amarela, suave a balançar sobre o vento da janela... A eternidade é um presente que não se embrulha, não tem bula, nem receita. A eternidade é bem mais que um momento, e na sua brevidade é eterna como o pensamento e apenas enquanto dura é o que dá beleza, magia, leveza, encantamento e singeleza a o momento. A eternidade é só um desejo, um desengano e quem sabe até um ato de alto abandono. A eternidade é apenas um engano do tempo e antes que a alcancemos, apenas um tormento.
Marli Nóbrega

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O PESO DA HORA




Venha! 
Vamos juntos sacudir os panos,
os recortes da poeira que restou,
apagar as mágoas, as dores
e orar pelo milagre que ficou...
Vamos! Vamos juntos recortar etapas,
apagar o passado entristecido
esquecer as tristezas ingeridas
e vomitar todas as dores dessa vida.
Vamos! Vamos! 
Vamos, vem! Chegou a hora
mas há sonho e pesadelo...
E eu bem sei - como o (real) pesa agora.
M.N

ALFORRIA




Escravidão machuca a pele
Algemas maltratam as mãos
Solidão devora sonhos
Abandono leva a desilusão.
...

Braços se cansam na luta
Voz cala no grito, a dor.
...
Vivo, arquivo.
Registro, tombo maus sonhos.
Versos.
Retrato.
A cicatriz de antigas feridas.

A dor presente – a escravidão,
o quilombo em mim:
chicote, açoite, desespero – o tronco.
Sangra a pele, a alma sonha.

Isaura quer alforria,
recuperar a alegria do coração enlutado,
quer reconquistar a sorte,
os amigos, a fantasia...

M.N

ROTA

E apenas porque era fácil a vida parecia leviana... Mas a sutileza dos vocábulos se refaz a cada ação. Diga-me sobre teus sonhos e retratarei quem tu és... Mascarando as realidades tristes e colorindo-as de fantasias falarei de coisas que sabemos bem. Eu te apresento um amanhã cheio de tons e poesias, voce me presenteia com dias agora festivos, repletos das nuances desse céu de azul mar. Tudo parece mágico, doce, leve, poético até que o tempo se apropria de si e muda o rumo das ondas. Espumas tocam nossos pés, enchendo-os de neve imaginária. Desenhamos na areia os passos que a gente deu à procura de nós e só apagamos as marcas deixadas quando chegamos lá onde tudo É. Esse desejo de ser nos unifica, nos invade a alma, nos afeta em proporções similares e, desse modo, apressamos a chegada pegando carona nas asas do vento de setembro. Abrimos as gavetas, tiramos delas tudo que não nos serve mais e reservamos um espaço para as novas descobertas. Vasculhamos do eu e de nós os mapas que não apontam para novos caminhos e desenhamos a rota que pretendemos. Assim, quem sabe conseguiremos chegar lá onde somos muito mais que palavra e som, muito mais que antídoto e veneno. E juntos dividiremos a fatia de sonhos que temos no bolo. Hoje, depois dos versos que te fiz replico a deixa da vida em pequenas composições. Procuro transferir palavras ao silêncio que nos cabe quando todas as palavras são desnecessárias. Eu tenho sonhos para nós e histórias de "acordar" pra te contar. Vai. Segue. Embrulha nossos pertences numa mala de viagem e toma nas mãos a escolha do roteiro para que dirijas o destino que sonhamos nosso. (M.N)