O tempo passa, assim, tão calmamente e nós, esperadores
de bonanças observamos a fumaça das horas que se esvaem para contemplar as
noites estreladas do céu desse nosso lugar tão lindo. Dançamos de alegria
quando temos chuva no telhado. A água caindo do céu é uma festa por todos
esperada a cada janeiro. Ontem à tarde choveu e para nós foi alegria que não se
expressa em palavras. Crianças correm nas ruas sujando os pés com lama, idosos
comentam "as mudanças do tempo". A chuva é sempre uma alegria mesmo
quando não dá para lavar nossa alma empoeirada de andanças e estiagens. Ela
chega e esfria o tenso calor dos nossos dias, perfuma o ar com cheiro de raiz e
terra molhada (perfume melhor que esses, só de filho). Uma alegria expressa
desce sobre nós, homens e mulheres sertanejas, filhos do semiárido brasileiro e
frutos acostumados com grandes períodos de seca... Choveu! O que mais podemos
dizer? E a chuva levou a fumaça das horas mais cinzentas do entardecer,
deixando no céu escuro da noite recém chegada um ambiente ainda mais negro para
que as estrelas se refletissem com mais intensidade. Depois da chuva o sono é
sempre mais tranquilo e as noites são mais especiais... É que se instala em nós
uma nova esperança, a esperança que nos move, a esperança que molha as dores e
orvalha a fé nos nossos corações ressequidos, áridos, necessitados de
transbordar águas novas.
Marli Nóbrega
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