quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O QUE TRAGO NAS MÃOS

Não trago nas mãos os versos que te fiz, trago os calos de um viver à construções. Trago retoques dos sonhos pincelados de emoções em aquarela sem cores, verdejadas de amores. Trago água turva de um rio nas invernadas da vida, nas enxurradas do tempo, trago muito mais que o vento, o cheiro da terra molhada para o sertanejo - alimento... Trago nas mãos desafios, teias, tecidos e fios, os peixes de correnteza e o eco dos vazios. Trago beijos que guardei, saudades que acumulei e o gosto amargo dos vinhos que não provei, nunca bebi... Trago na mala os achados das coisas que eu perdi... Trago o roteiro, a sinopse, o prólogo, síntese do pouco que li... Trago gestos dispensados, reflexos do que vivi, uma colcha de retalhos para os frios que senti... Trago cantigas de roda, desenhos que colori, tudo que tive e não quis, o que eu quis, mas perdi... Trago tudo o que sonhei e as paisagens que pintei no meu caderno de viagens... Desenhos feitos à mão coloridos com emoção, esses me falam mais alto. Trago tanta poesia, tanto amor, tanta agonia, tanta dor, tanta esperança, tanto abraço tatuado - no corpo à luz do dia - os cansaços, as batalhas, as pontes que construí, os muros que derrubei e os amores que senti... Trago redes e varandas, tudo que nunca juntei, a obra quase sem graça, os livros que publiquei e para não ser muito ingrata as flores que eu colhi, as que com pranto reguei. Trago os calendários do passado e o ontem que planejei... Ah! Trago flores e perfumes para os jardins que amei... Trago gestos, e palavras, e sonhos, protestos? Ei!... O que trago nas mãos? Ainda NÃO sei! Se alguém souber passa a cola pois nisso me reprovei. (M.N)

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