E
no cemitério estive com a Marquesa de Santos, pude conversar com o poeta e
escritor Mário de Andrade em sua eterna morada. Sentei ao lado do sepulcro de
Monteiro Lobato e fiz viagem imaginária aos seus escritos. Para minha surpresa
o Conde Francisco Matarazzo ainda habita seu vasto império, sua fortaleza em
granito e mármore... Visitei o abrigo da professora Ruth Cardoso e
entristeci-me ao ver seu jazigo abandonado de cuidados e zelo. Nele, um
universo de folhas caídas apresentavam para mim o que fica depois da ida - o
outono... Rubens de Falco, Armando Bogus e Itália Fausta contracenavam a
tragédia real daquele ambiente encantador ao som do piano de Guiomar Novaes sob
a ótica de Olívia Guedes Penteado - protetora das artes... Nem pássaros havia
naquele lugar sagrado, onde Emílio Ribas, Franco da Rocha e Libero Badaró
certamente procuram remédio para a solidão que resta, para a dor que ali se
derrama entre lágrimas e parafina. Encantada fiquei com o abrigo de Tarsila do
Amaral (motivo da minha visita) bem próximo a obra de Victor Brecheret "O
sepultamento", 1923. Contemplei a Euterpe de Nicola Rollo na rua 11,
terreno 36 e fotografei o sepulcro de Campos Sales onde o Brasão da República
em cobre puro está afixado imponentemente. Washington Luís também jaz próximo a
Altino Arantes "Presidente da Província" e algo me diz que Antônio da
Silva Prado que foi Ministro do Império e primeiro prefeito da cidade ainda
discute com eles a política local. Na quadra 11, terreno 16 de Galileu
Emendabili fotografei Pietá - 1924, uma réplica impressionante pela perfeição
esculpida e "O Adeus" de 1953 localizada no terreno 7 da quadra 20.
Realizei um sonho de longa data e como o amigo Zé Renato tive lágrimas nos
olhos ao chegar tão perto daqueles que sempre admirei. Ponto de Interrogação na
quadra 83 terreno 12/13 me trouxe inquietudes, conflitos interiores e pranto
desmedido. Acho que ali encontrei as respostas. Pude fotografar dentro de um
túmulo abandonado e confesso que me senti em casa, protegida, acolhida e feliz.
A alegria de visitar sepulcros de grandes nomes deste solo como escultores,
intelectuais, políticos e personalidades raras mexeu comigo de modo particular.
Eu pude realizar um sonho antigo, contemplar a vida e a morte num mesmo espaço,
mas encantada mesmo fiquei com Mário Ramos, um obra de arte viva e falante,
sábia, acolhedora e divinal que caminha pelas ruas, quadras e terrenos daquele
lugar conduzindo-nos pelos endereços que eu procurava com a mesma expectativa
do "Cristo Carregando a Cruz" de Júlio Starace / 1923. Mário
falou-nos de coisas que até então eu não ouvira de ninguém, injetou sem
perceber que o fazia um pouco de vida em minhas artérias, desenhou sem usar as
cores nem as aquarelas de Tarsila do Amaral uma nova paisagem para a vida
rústica até ali conduzida. Falou-nos de sonhos, de dores, de amores, de
lágrimas, de gestos, de cenas, de perdas, de esperas e então pude entender que
suas palavras não me chegaram por acaso, não me vieram à toa, pelo contrário
alguma das almas mais sublimes que habitam a consolação deve ter usado seu
corpo para mostrar que viver é sempre a melhor opção e ser feliz a escolha que
devemos fazer... Um dia, sem que percebamos estaremos também entre cinzas e pó
e não podemos deixar para depois aquilo que nos permite respirar agora. Que o
diga o abolucionista e poeta Luís Gama que certamente ainda tenta libertar os
escravos que ali chegam aos montes. Eu era o "Anjo da Guarda" de
Enrico Bianchi a procura de respostas. Eu era uma alma perdida entre tantas
almas encontradas.
Obrigada Senhor! Pelas
palavras que me chegam, pelas falas, pelas emoções, pela vida...
Marli Nóbrega
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