quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

CONSOLAÇÃO (depois de realizar o sonho)




E no cemitério estive com a Marquesa de Santos, pude conversar com o poeta e escritor Mário de Andrade em sua eterna morada. Sentei ao lado do sepulcro de Monteiro Lobato e fiz viagem imaginária aos seus escritos. Para minha surpresa o Conde Francisco Matarazzo ainda habita seu vasto império, sua fortaleza em granito e mármore... Visitei o abrigo da professora Ruth Cardoso e entristeci-me ao ver seu jazigo abandonado de cuidados e zelo. Nele, um universo de folhas caídas apresentavam para mim o que fica depois da ida - o outono... Rubens de Falco, Armando Bogus e Itália Fausta contracenavam a tragédia real daquele ambiente encantador ao som do piano de Guiomar Novaes sob a ótica de Olívia Guedes Penteado - protetora das artes... Nem pássaros havia naquele lugar sagrado, onde Emílio Ribas, Franco da Rocha e Libero Badaró certamente procuram remédio para a solidão que resta, para a dor que ali se derrama entre lágrimas e parafina. Encantada fiquei com o abrigo de Tarsila do Amaral (motivo da minha visita) bem próximo a obra de Victor Brecheret "O sepultamento", 1923. Contemplei a Euterpe de Nicola Rollo na rua 11, terreno 36 e fotografei o sepulcro de Campos Sales onde o Brasão da República em cobre puro está afixado imponentemente. Washington Luís também jaz próximo a Altino Arantes "Presidente da Província" e algo me diz que Antônio da Silva Prado que foi Ministro do Império e primeiro prefeito da cidade ainda discute com eles a política local. Na quadra 11, terreno 16 de Galileu Emendabili fotografei Pietá - 1924, uma réplica impressionante pela perfeição esculpida e "O Adeus" de 1953 localizada no terreno 7 da quadra 20. Realizei um sonho de longa data e como o amigo Zé Renato tive lágrimas nos olhos ao chegar tão perto daqueles que sempre admirei. Ponto de Interrogação na quadra 83 terreno 12/13 me trouxe inquietudes, conflitos interiores e pranto desmedido. Acho que ali encontrei as respostas. Pude fotografar dentro de um túmulo abandonado e confesso que me senti em casa, protegida, acolhida e feliz. A alegria de visitar sepulcros de grandes nomes deste solo como escultores, intelectuais, políticos e personalidades raras mexeu comigo de modo particular. Eu pude realizar um sonho antigo, contemplar a vida e a morte num mesmo espaço, mas encantada mesmo fiquei com Mário Ramos, um obra de arte viva e falante, sábia, acolhedora e divinal que caminha pelas ruas, quadras e terrenos daquele lugar conduzindo-nos pelos endereços que eu procurava com a mesma expectativa do "Cristo Carregando a Cruz" de Júlio Starace / 1923. Mário falou-nos de coisas que até então eu não ouvira de ninguém, injetou sem perceber que o fazia um pouco de vida em minhas artérias, desenhou sem usar as cores nem as aquarelas de Tarsila do Amaral uma nova paisagem para a vida rústica até ali conduzida. Falou-nos de sonhos, de dores, de amores, de lágrimas, de gestos, de cenas, de perdas, de esperas e então pude entender que suas palavras não me chegaram por acaso, não me vieram à toa, pelo contrário alguma das almas mais sublimes que habitam a consolação deve ter usado seu corpo para mostrar que viver é sempre a melhor opção e ser feliz a escolha que devemos fazer... Um dia, sem que percebamos estaremos também entre cinzas e pó e não podemos deixar para depois aquilo que nos permite respirar agora. Que o diga o abolucionista e poeta Luís Gama que certamente ainda tenta libertar os escravos que ali chegam aos montes. Eu era o "Anjo da Guarda" de Enrico Bianchi a procura de respostas. Eu era uma alma perdida entre tantas almas encontradas. 


Obrigada Senhor! Pelas palavras que me chegam, pelas falas, pelas emoções, pela vida...

Marli Nóbrega

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