Chove!
Cada
gota que desce é um punhal afiado em minha pele friorenta. A escuridão da noite
me deixa com a visão incandescida, turva. O frio é um açoite nos punhos da
minha rede cor de lua. O cheiro das raízes umedecidas me afeta em cheio
transformando o ar que se respira em perfume jamais sentido... A noite é uma
festa onde pássaros procuram abrigo nas copas das árvores frondosas. E
eu? Passarinho adormecido com velhas canções de ninar. A noite é fria, mas a
alma é paciente. O corpo é invernado, mas o sonho é consciente. Há um inverno
em minha vida, mas é preciso semear a mudança para colher esperança...aquela
mesma esperança em outras chuvas perdida. Saio à chuva para lavar a alma e
superar as inundações pressentidas. Hoje chove frio, chove calma, chove
amor...Amanhã quem sabe chove vida, chove sonho, chove pranto, chove dor...
... E
nesse inverno vivido, o verão deve chegar na primavera que insiste em minha
mágoa outonar.
Marli Nóbrega
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