quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

INVERNADA


Chove!

                   Cada gota que desce é um punhal afiado em minha pele friorenta. A escuridão da noite me deixa com a visão incandescida, turva. O frio é um açoite nos punhos da minha rede  cor de lua. O cheiro das raízes umedecidas me afeta em cheio transformando o ar que se respira em perfume jamais sentido... A noite é uma festa  onde pássaros procuram abrigo nas copas das árvores frondosas. E eu? Passarinho adormecido com velhas canções de ninar. A noite é fria, mas a alma é paciente. O corpo é invernado, mas o sonho é consciente. Há um inverno em minha vida, mas é preciso semear a mudança para colher esperança...aquela mesma esperança em outras chuvas perdida. Saio à chuva para lavar a alma e superar as inundações pressentidas. Hoje chove frio, chove calma, chove amor...Amanhã quem sabe chove vida, chove sonho, chove pranto, chove dor...

                     ... E nesse inverno vivido, o verão deve chegar na primavera que insiste em minha mágoa outonar. 

Marli Nóbrega

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