quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
VONTADES
Andar pelos campos orvalhados e sentir o cheiro de raiz, de terra molhada... Tomar banho de rio, comer feijão verde e deitar numa rede fria... Sair por aí contemplando o mato, lagedos escorregadios, pássaros cantores e os bichos do meu lugar. Rever amigos e conversar sem pressa à sobra das oiticicas. Ouvir Vander Lee, Djavan, Renato Marinho...Ah! As vezes aquilo que mais queremos parece quase impossível, sim QUASE. Nossas vontades tem a pressa de ocorrer e nossos sonhos, desejos de acontecer. Hoje eu pintaria numa tela a velha casa onde aprendi a contemplar o bem e disseminá-lo, onde pude ouvir a chuva das noites de invernada valsando em nosso telhado... Lá o céu parecia muito próximo de nós. As estrelas cadentes caiam em nossas redes e o rouxinol chorava no fim da tarde como quem declama os sonetos de Florbela... Lá tudo era diferente, mágico, espetacular. Lá tudo era verde, tudo era vida, tudo era sonho, tudo era guarida. Lá tudo era grande, completo, especial. Lá tudo era motivo de gratidão... Lá tudo era vida. Vida sossegada, vida, vida. Lá tudo era nosso, tudo era ouro, tudo era mágico... E eu, nascida bicho do mato não sei ser arranha-céu. Sou da base, das forquilhas, dos plantios, das colheitas, das carvoeiras do meu pai, sou do fogão de minha mãe movido à lenha, sou do prato com amor como tempero. Sou das cercas de arame, das porteiras sempre abertas, das trouxas de roupa, dos riachos e correntezas... Sou das saudades, dos amores, das levezas, das cantorias do rádio ... Sou de tudo que aos poucos me falou sobre viver. Sou do ontem, do agora, da palavra imediata, das lembranças, das demoras... Sou de lá, sou do passado, meu tempo não tem frações. (M.N)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário