GUARDO EM MIM MUITAS RELÍQUIAS DO PASSADO:
O
primeiro caderno com as anotações que fiz
e
permeando suas páginas o afeto de Dona Zuza
-
aquela que eu queria ser quando crescesse...
Guardo
o sabor da comida de minha mãe
feita
em fogão de lenha e panela de barro
-
ninguém tempera como ela, certamente...
Guardo
as lembranças dos banhos de chuva
e do
riacho de Vó Mãezinha
-
água que lavava além do corpo
(lavava
a alma e levava qualquer dor).
Guardo
as canções do meu pai
embalando
o sono que demorava
-
nenhuma música alcançou
a
beleza de suas melodias...
Guardo
a sombra da cajaraneira
onde
minhas bonecas de pano
brincavam
comigo de ser gente.
Guardo
o aprendizado maior
que
a vida me ofereceu
- a
escolinha de Nova de Darcílio
onde
um dia ensinei...
Guardo
os terços de tia Marlene
-
mulher de fé maior que o corpo...
Guardo
o parque de Zuza
-
meu carrocel de criança.
Guardo
os dramas apresentados
-
eles me revelaram indicadores da vida real.
Guardo
caminhos que jamais percorrerei
-
porém se fechar os olhos piso neles outra vez.
Guardo
a certeza de que a vida
é
maior que morte...
Guardo
traços marcantes:
as
panelas de barro de Maria Gomes,
as
bonecas de pano de Olíria,
os
doces de Seu severino Paulino,
as
flores de Bela Paulina,
o
cheiro do café de Vó Dasdores,
os
passeios de Jipe com Padre João Agripino,
as
idas ao cemitério no caminhão de Seu João Amaro
que
memorizei como lembrança
numa
fotografia de Tio Enock...
Guardo
em mim tão somente aquilo
que
me fez ser a pessoa que sou.
E de
agora?
Guardo
o cheiro do meu filho
(melhor
perfume do mundo)
Da
vida - estas são as relíquias
que
tenho de mais valor,
pois
nelas eu descobri
as
várias dimensões do amor.
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