Fevereiro
chegara sem muita pressa, assim como a própria vida: no seu tempo. As fantasias
de pierrôs e colombinas invadiam meu coração palhaço neste carnaval de sonhos.
O bloco da ilusão se apropriando dos verbos e sentimentos, em suas abstratas
ações, manifestavam em mim uma tradicional quarta-feira de cinzas. Eu me
apropriava dos velhos tempos e desfilava na avenida principal toda a
inquietação conduzida no peito. Já era tempo de acordar desse sonho
corriqueiro. Já era tempo de mostrar pra vida que a fantasia nos conduz, não o
contrário. Só ela nos atinge de um jeito todo particular de ser. Mascarados,
monstros, palhaços... Eis que outros lavam a cara e enfrentam a vida com a
própria imagem, sem esconder o que são. São estes os mais nobres foliões da
festa – homens e mulheres vestidos de si mesmo sem máscaras, maquilagens ou
segredos, despidos de toda alegoria. Há em cada um de nós uma fantasia perdida,
há em cada fantasia perdida um pouco de nós guardado em suas entranhas. Eu era
memória do carnaval que passou deixando marcas quando meu bloco vestia
alegria e eu chorava de dor.
Marli Nóbrega
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